sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O HOMEM QUE TENTOU "DESVOTAR"

Lembro-me de um fato interessante, ocorrido na eleição para Presidente da República, em 1989, quando disputaram Fernando Collor e Lula. Eu estava em Vitória do Mearim, na varanda da casa de minha mãe, cercado de amigos, em acalorada conversa sobre política, “apertando uma gelada’ do bar de meu irmão, Paulo Tarso, que funcionava no salão da frente da nossa casa, e que, apesar de fechado ao público, estava funcionando “internamente”.

Em dado momento, pela porta da rua entreaberta, surge um cidadão esguio, brancão, falando alto, andar meio cambaleante, e anunciando que queria me ver, pois me conhecera ainda criança e soube que eu estava em Vitória. Tratava-se do cidadão de nome Seu Luis, que apesar de não o reconhecer, essa fato não esfriou a calorosa cena do nosso reencontro, pois tanto ele quanto eu já estávamos “embiritados”, além do que ele era extremamente conversador, e logo estávamos nos afinando.

A partir de duas lorotas seguidas, e com seu jeitão engraçado, Seu Luis cativou a todos os que estavam lá em casa, e o papo rolou solto, sempre regado a cervejas.

Seu Luis é um cidadão simples, de família honrada, trabalhador rural, vaqueiro, portanto de jeito simples e rústico. Via de regra, essas pessoas, quando estão trabalhando no campo, andam a cavalo, portam um baita “Colins rabo de galo” bem amoladinho, além de uma peixeira para “cortar um limão” antes de “apertar uma birita”, ou para  “picar” fumo, para fazer um cigarro “pau-ronca”. Como era dia de eleição, Seu Luis deveria estar somente com a sua inseparável peixeira, por dentro da camisa.

A conversa rolava animada, muitas gaitadas para cada nova lorota contada por Seu Luis, quando puxei o assunto da eleição, e lhe perguntei se já havia votado. Ele ficou sério, e me respondeu compenetradamente:

-Pedrinho, já votei no Collor. Eu não voto de jeito nenhum num comunista comedor de crianças como Lula.

A moçada então parou o murmurinho das conversas ao nosso redor, pois sabiam que eu iria reagir, no mínimo, dando umas “explicações” para Seu Luis, pois todos me conheciam, e sabiam que eu era Lula até debaixo d´água, e que também não gostava (e não gosto) do processo de desinformação e lavagem cerebral patrocinado e ensinado pelos “gringos”, desde os anos 60, quando, utilizando desse recurso, viabilizaram o primeiro golpe político no Brasil, em 1964 (em 2016, patrocinaram o segundo).

Como o homem já tinha me cativado, pedi calmamente para ele se sentar perto de mim, e então lhe falei:

-Olha Seu Luis, eu vou lhe explicar uma coisa muito simples, e depois o senhor vai tirar as suas conclusões. O senhor sabe o que significa a palavra comunidade, que Padre Sérgio tanto fala na igreja?

Ele então me respondeu: Pedrinho, eu acho que tem a ver com o povo que mora num lugar.

Prossegui então, com esta explicação: é isso mesmo Seu Luis. Pois a palavra comunista, vem de comunidade e não tem nada a ver com essa estória de comer criancinha.

Pausa pesada, silêncio geral, a rapaziada toda calada, Seu Luis me olhando, os olhos começando a merejar lágrimas, e então ele falou com a voz trêmula de raiva:

Pois Pedrinho, como tiveram a coragem de me enganar desse jeito?
E levantando-se de vez da cadeira, deu uma arrumada no cós da calça, onde deveria estar a “viana”, e anunciou:
-vou agora mesmo lá no Grupo Escolar, vou cortar a urna e arrancar o meu voto lá de dentro!!! Só votei em Collor porque me falaram que Lula comia criancinha.

Todo mundo partiu para segurar Seu Luis, e com uma trabalheira danada conseguimos conter o homem. O ambiente foi se acalmando, e algumas cervejas depois, Seu Luis ainda não conseguia retomar o seu rítmo de conversador, pois permanecia sentado na cadeira ao meu lado, cabisbaixo, abanando a cabeça em gesto de negativa, e murmurando baixinho: 
- rapaz, por que me enganaram desse jeito?

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