O HOMEM QUE TENTOU "DESVOTAR"
Lembro-me de um fato
interessante, ocorrido na eleição para Presidente da República, em
1989, quando disputaram Fernando Collor e Lula. Eu estava em Vitória do Mearim, na varanda da casa de minha mãe, cercado de
amigos, em acalorada conversa sobre política, “apertando uma
gelada’ do bar de meu irmão, Paulo Tarso, que funcionava no salão
da frente da nossa casa, e que, apesar de fechado ao público, estava
funcionando “internamente”.
Em dado momento, pela
porta da rua entreaberta, surge um cidadão esguio, brancão,
falando alto, andar meio cambaleante, e anunciando que queria me ver,
pois me conhecera ainda criança e soube que eu estava em Vitória.
Tratava-se do cidadão de nome Seu Luis, que apesar de não o reconhecer, essa fato não esfriou a calorosa cena do nosso reencontro,
pois tanto ele quanto eu já estávamos “embiritados”, além do
que ele era extremamente conversador, e logo estávamos nos afinando.
A partir de duas
lorotas seguidas, e com seu jeitão engraçado, Seu Luis cativou a
todos os que estavam lá em casa, e o papo rolou solto, sempre regado
a cervejas.
Seu Luis é um cidadão
simples, de família honrada, trabalhador rural, vaqueiro, portanto
de jeito simples e rústico. Via de regra, essas pessoas, quando
estão trabalhando no campo, andam a cavalo, portam um baita “Colins
rabo de galo” bem amoladinho, além de uma peixeira para “cortar
um limão” antes de “apertar uma birita”, ou para “picar”
fumo, para fazer um cigarro “pau-ronca”. Como era dia de eleição,
Seu Luis deveria estar somente com a sua inseparável peixeira, por
dentro da camisa.
A conversa rolava
animada, muitas gaitadas para cada nova lorota contada por Seu Luis,
quando puxei o assunto da eleição, e lhe perguntei se já havia
votado. Ele ficou sério, e me respondeu compenetradamente:
-Pedrinho, já votei no
Collor. Eu não voto de jeito nenhum num comunista comedor de
crianças como Lula.
A moçada então parou
o murmurinho das conversas ao nosso redor, pois sabiam que eu iria
reagir, no mínimo, dando umas “explicações” para Seu Luis,
pois todos me conheciam, e sabiam que eu era Lula até debaixo
d´água, e que também não gostava (e não gosto) do processo de
desinformação e lavagem cerebral patrocinado e ensinado pelos
“gringos”, desde os anos 60, quando, utilizando desse recurso, viabilizaram o primeiro
golpe político no Brasil, em 1964 (em 2016, patrocinaram o segundo).
Como o homem já tinha
me cativado, pedi calmamente para ele se sentar perto de mim, e então
lhe falei:
-Olha Seu Luis, eu vou
lhe explicar uma coisa muito simples, e depois o senhor vai tirar as
suas conclusões. O senhor sabe o que significa a palavra comunidade,
que Padre Sérgio tanto fala na igreja?
Ele então me
respondeu: Pedrinho, eu acho que tem a ver com o povo que mora num
lugar.
Prossegui então, com
esta explicação: é isso mesmo Seu Luis. Pois a palavra comunista,
vem de comunidade e não tem nada a ver com essa estória de comer
criancinha.
Pausa pesada, silêncio
geral, a rapaziada toda calada, Seu Luis me olhando, os olhos
começando a merejar lágrimas, e então ele falou com a voz trêmula
de raiva:
Pois Pedrinho, como
tiveram a coragem de me enganar desse jeito?
E levantando-se de vez
da cadeira, deu uma arrumada no cós da calça, onde deveria estar a
“viana”, e anunciou:
-vou agora mesmo lá no
Grupo Escolar, vou cortar a urna e arrancar o meu voto lá de
dentro!!! Só votei em Collor porque me falaram que Lula comia
criancinha.
Todo mundo partiu para
segurar Seu Luis, e com uma trabalheira danada conseguimos conter o
homem. O ambiente foi se acalmando, e algumas cervejas depois, Seu
Luis ainda não conseguia retomar o seu rítmo de conversador, pois
permanecia sentado na cadeira ao meu lado, cabisbaixo, abanando a
cabeça em gesto de negativa, e murmurando baixinho:
- rapaz, por que
me enganaram desse jeito?
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