domingo, 23 de abril de 2017

DISCURSO DE POSSE NA AVL





Estou imensamente honrado por pertencer a esta casa, representativa da força criativa do povo Arariense e Vitoriense, e por isso tenho que compartilhar essa honra com diversas pessoas, Ararienses e Vitorienses, que de certa forma me ajudaram a chegar aqui.



Os valores mais sagrados para o ser humano são aprendidos na infância, no convívio diário com a família, com os amigos e parentes, com os professores, e no convívio com os membros de sua congregação religiosa, seja ela qual for.



Nasci e passei minha infância e adolescência aqui em Vitória, numa época em que se vivia de forma simples, conforme resumirei em seguida:

  • Tínhamos a praça Rio Branco, que era um bonito campo, e que aos poucos foi ganhando calçamento, mas que sempre foi o nosso campo de futebol, nosso local de empinar papagaios (sem rabiola), o local de encontro das escolas de samba, no carnaval, e também o local onde eram montadas as barracas de palha, no festejo de Setembro.
  • Tínhamos o rio Mearim como o elemento central do dia-a-dia da cidade (com certeza, já poluído por ter muitas cidades ribeirinhas):
    • onde lanchas, batelões e barcos a vela sempre atracavam nas rampas, com desembarque ou embarque de cargas e passageiros. Quando se ouvia a zoada dos motores, ao longe, e depois o apito, anunciado que estavam no estirão de chegada, todos corriam e se aglomeravam na rampa da Praça, para comemorar a chegada das lanchas com passageiros, que vinham da Capital;
    • onde as mulheres lavavam roupas enquanto conversavam sobre suas vidas e a vida da cidade, mas sempre atentas à chegada da maré;
    • onde os homens, mulheres e crianças enchiam água para suas casas;
    • onde passeávamos de canoa;
    • onde pescávamos;
    • onde nadávamos;
    • onde Pelé de Faray, atualmente Pelé da rapadura (Sr. José Martins Gomes) demostrava sua habilidade de melhor remador da baixada maranhense;
    • e onde os banhos eram momentos de diversão, com os mais afoitos saltando dos toldos das lanchas maiores, ou saltando dos galhos das árvores, na preamar;
  • Tínhamos pescadores fazendo suas tarrafas e redes de pesca.
  • Tínhamos tecelões que faziam redes de dormir.
  • Tínhamos alfaiates e costureiras.
  • Tínhamos sapateiros, ferreiros e armeiros;
  • Tínhamos artesãos que faziam meiasaba, abano, cofo e balaio.
  • Tínhamos quebradeiras de coco babaçu.
  • Tínhamos carro de boi.
  • Tínhamos as brincadeiras infantis de andar nas latas ou de pernas-de-pau, jogar chucho, jogar bolinhas ou petecas, jogar sopapo, empurrar uma roda com uma tabica ou em gancho, puchar o colega na caçamba, que caia das palmeirinhas, e nas noites de luar, os meninos ficavam nas brincadeiras de correr, enquanto as meninas entoavam lindas cantigas de roda;
  • Já adolescentes, tínhamos os bailinhos no coreto, ao som da radiola portátil de João Teles, a pilha, e às vezes os bailinhos comemorativos de aniversário, nas casas dos colegas. E foi justamente num desses bailinhos, em 1970, provavelmente em Julho, na casa de D. Iolanda, comemorando o aniversário da Confreira Amparo, que comecei a namorar Dagmar.
  • E tínhamos também as serestas com Rui Viana, ou com o confrade Antonio Moyses Neto (*) e Zé Vieira;

(*) Antonio Moyses Neto, nosso Confrade, a quem quero render minhas homenagens, pois sempre o tive na conta de meu irmão mais velho, e assim, sempre se portou comigo.



Mas como tudo tem princípio, meio e fim, numa noite de Dezembro de 1967 eu recebi o boletim de aprovado, como concludente do curso normal-ginasial, e enquanto meu pai e minha mãe ainda estavam com os outros pais e alunos, aguardando o final da solenidade de entrega das notas, eu voltava para casa para empreender o meu plano de vida que, de há muito tempo, estava desenhado na minha cabeça: eu iria estudar Eletromecânica na Escola Técnica Federal do Maranhão.



Nessa mesma noite, antes que meus pais retornassem para casa, eu já estava viajando para Arari, na lancha de seu Diquinho “Pirulito”, levando somente as poucas roupas que eu tinha, algum dinheiro, dado por Dona Venância Bogéa, minha vó materna e minha protetora, e consegui a permissão de Seu Pirulito, para eu dormir na lancha, pois iria pegar o ônibus de Nogueira, às 6 da manhã, para São Luís.



Graças a Deus todo o meu plano se realizou, e com a minha primeira profissão, praticamente construi a minha vida e da minha família. Com a evolução tecnológica, e com o meu crescimento profissional, aos 47 anos voltei para mais uma etapa de formação, na mesma Escola Técnica Federal, só que então, denominada CEFET, onde fui graduado em Eletrônica Industrial.



A minha atividade, como músico, está publicada em meu blog, mas posso acrescentar que apesar de ter passado muitos anos sem contato com a música, a partir de 2009, quando me aposentei, decidi voltar a tocar, pois ponderei que seria um enorme descaso com o dom que Deus me deu, se me mantivesse afastado da música.



Então, comprei uns instrumentos, e recomecei o meu aprendizado, gravando músicas dos anos 60 e 70, tendo a companhia de Dagmar, emprestando a sua voz, e assim, consegui me manter ocupado, e também pude colaborar com algumas marchinhas para o carnaval vitoriense.



Eu tinha muita vontade de compor um dobrado, pois sou admirador de orquestras de sopro, e felizmente já realizei esse sonho, com o dobrado 19 de abril, em homenagem ao aniversário de nossa terra. Outra música que eu desejava muito compor era um louvor à nossa padroeira, e também já está pronta, que é a canção Senhora de Nazaré.



Vou aproveitar este momento de felicidade para homenagear Dagmar, nossos filhos e netos, e também a todos os meus irmãos.



Homenagear, in memoriam, os meus pais e avós, que me deram uma sólida base de princípios e valores, e foi com Dona Venância Bogéa que aprendi uma grande lição de vida, que é o relacionamento respeitoso e igual com todas as pessoas, acima de qualquer diferença ou preferência. Como exemplos, posso citar que ela era católica devotada, mas sempre se relacionou muito bem com os Pastores evangélicos e com várias pessoas da congregação. Era amiga, por igual, dos chefes políticos locais, de qualquer lado, e deles recebia o mesmo trato, e isso se refletia na nossa comunidade, onde ela era querida e admirada.



Quero homenagear os Ararienses que cruzaram meu caminho, de forma colaborativa, como o já citado, Sr. Diquinho “Pirulito”; homenagear o Médico e Professor, Dr. João de Oliveira Prazeres, cidadão Arariense e Vitoriense, que foi companheiro de quarto, quando éramos estudantes, e era meu tutor, junto à Escola Técnica Federal; homenagear a Sra. Hilda Pires Costa, dona da Pensão onde morávamos, que cuidava da gente de forma maternal; homenagear Manoel de Jesus Costa, dono da lancha Fé em Deus, que conheci na infância, e que anos depois, reencontrei em Macapá, onde por cinco anos tivemos uma convivência de grandes amigos; homenagear José Francisco Pestana (in memoriam), e a todos os outros ararienses, colegas de VALE, excelentes operadores de máquinas ferroviárias.



É público e notório que os nossos coirmãos ararienses sempre foram destaque na arte da navegação fluvial ou marítima, e agora torno público, que também são destaque na operação de equipamentos de construção e manutenção ferroviária.



Da mesma forma, quero homenagear os vitorienses importantes na minha vida, começando pelo Sr. Miguel Moysés, que brilhava os olhos quando o assunto era a criação de um curso ginasial em Vitória, e juntamente com José Ribamar de Matos, Padre Eliud e Punim, criaram a Escola Normal Ginasial Cenecista, em 1964.



E por falar na Escola CENECISTA, aproveito para homenagear a todos os professores da nossa primeira turma da Escola Cenecista, através das Confreiras e Professoras Dona dos Reis, Dona Darcy e Dona Fátima, e estendo as homenagens a todos os colegas de turma, pois no final deste ano, de 2017, completam-se 50 anos de nossa formatura.



Quero fazer uma homenagem especial a uma turma de estudantes vitorienses, que iniciou o 2° grau em 1977, portanto há 40 anos, no Colégio Ana Bogéa, onde tinham algumas professoras, que já lecionavam, e que ali iniciavam o curso Normal. São elas:


Claudete Rodrigues Jardim

Ana Clara Coelho

Rosimar Alves Silva

Elizabete Andrade

Silenes Cavalcante

Sebastiana Garros

Iolanda Leite Coelho

Maria Edite Batalha Rodrigues



Como detalhe, o único aluno era Ideraldo de Sousa Vieira.



Saibam que foi uma grande honra ter sido professor de pessoas tão importantes da nossa comunidade, e quando completei 50 anos de idade, sentado novamente num banco de faculdade, à noite, após uma jornada de trabalho, sempre lembrava dessa turma, para me dar força, e continuar.



Quero homenagear os vitorienses Juvenal Torres Coelho e Abelardo Pereira, como líderes de uma fantástica e vitoriosa aventura, chamada Macapá: vários vitorienses mudaram-se para aquela cidade e lá criaram raízes, e hoje formam, com filhos e netos, uma imensa comunidade vitoriense.



Um agradecimento carinhoso ao Ludovicence Benedicto Ferreira de Barrros e Vasconcellos Neto, comandante de terra, mar e ar, meu colega de Escola Técnica desde 1968, que sempre se portou como um verdadeiro amigo, me mostrando os caminhos e oportunidades, através dos quais e das quais, atravessei várias etapas da minha vida profissional. Hoje somos aficionados por navegação aérea, e voamos juntos, de vez em quando.



Agora quero lhes falar sobre o meu antecessor, JOSÉ DE RIBAMAR DUARTE, “Tio Zeca”, que nasceu no povoado de Lapela, em 1924, na condição de vitoriense, pois ali ainda era nosso município.



Não o conheci pessoalmente, o que lamento, mas seu histórico, hoje registrado na AVL, é simplesmente admirável, e muito conhecido, haja vista ser cantado por todos os vitorienses, com a canção Soberano, nosso hino municipal, uma de suas obras.



De linguagem simples e popular, seu pendor lhe levou a descrever os fatos do dia-a-dia na forma de versos e canções. A música soprava as velas do seu barco da vida, e assim, vencia as turbulências que a todo vivente, afligem.



Seu banjo foi lenitivo e companheiro nas muitas noites de solidão e vigília, que enfrentou por dever profissional, assim como também, foi o seu passaporte para o sucesso. Não foi preciso o saber dos livros para lidar bem com as palavras, aprendeu com a vida, que quanto mais simples o falar, mais compreensivo será, aos ouvidos do povo.



Cidadão do mundo, teve a sorte de compartilhar sua arte com grandes nomes da música maranhense, e teve o privilégio de transmitir seu dote musical a muitas pessoas, em muitos lugares.



É um imenso desafio assumir a cadeira 37 da AVL, pois terei que honrá-la como sucessor de tão ilustre vitoriense. Aos seus familiares transmito o meu carinho e meu compromisso de preservar o legado do nosso querido “Tio Zeca”.



A cadeira 37 da AVL, que ocuparei a partir de hoje, tem como patrono o Sr. Lourenço Pereira Pinto,  um ilustre e culto cidadão vitoriense, que de 1901 a 1987 percorreu uma trajetória brilhante, partindo do povoado de Santa Cruz, lutando bravamente pela sobrevivência e pelo seu aprendizado.



Em registros no arquivo nacional, de 1929, portanto aos 28 anos de idade, aparece como ferreiro, juntamente com Quirino d'Anunciação dos Santos, Cirineu Cotrim dos Santos, Domingos José Marinho, Hermógenes Marinho e Pedro Figueiredo de Barros, meu avô.



Nos mesmos registros, de 1931, aparece como 2° suplente de Juiz seccional, da Justiça Federal, em Vitória do Mearim.



Foi também músico civil e militar, instrumentista e compositor, foi comerciante e proprietário rural, e aos 49 nos de idade, foi prefeito Municipal do imenso município de Vitória do Mearim.

E por conta de arcar com as despesas da sua campanha eleitoral, praticamente se desfez de parte do seu patrimônio, havido como comerciante e proprietário rural.


Graças às informações colhidas e divulgadas pela AVL, muita gente hoje já conhece algo sobre sua vida, mas aproveito e citarei alguns dos seus feitos, como Prefeito Municipal de Vitória, por apenas 2 anos:


  • Luz elétrica, pública e domiciliar na sede, em 1952.
  • O primeiro caminhão do município.
  • Instrumentos musicais para a banda municipal.
  • Finanças do município com contabilidade precisa e publicada, apenas pelo sentimento de respeito à coisa pública, haja vista que à época, não era essa a prática, pois não havia o rigor contábil e fiscalizatório, adotado atualmente.


A respeito da luz elétrica, gostaria de relembrar que esta foi a primeira tentativa de colocar esta utilidade para o público em geral, mas lembrando que os chefes políticos da época, que dependiam de seus serviços de alto-falantes, como veículos de comunicação, já possuíam pequenos motores de luz: Padre Eliud, para fazer funcionar a Voz da Vitória, que tinha os projetores de som instalados no cume da igreja matriz, e Seu Antoninho Costa, para fazer funcionar a Voz Popular Vitoriense, com os projetores de som instalados num mastro de madeira, em frente ao casarão de pedras, onde funcionava o Elite Bar, sob o comando de Bazinho Barros.



Lembrando a quem viveu essa época, e para conhecimento dos mais novos, a respeito da luz elétrica em Vitória, seu Bazinho Barros participou tecnicamente dessa primeira implantação, do prefeito Lourenço Pinto, participou da segunda implantação, de iniciativa do prefeito Urany Costa (Punim) em 1963 e em seguida, da terceira implantação, do sistema da CERNE (Companhia de eletrificação rural do nordeste), em 1966, órgão do governo federal, e que foi substituído posteriormente pela CEMAR, em 1973.



Portanto, Senhoras e Senhores, este é o perfil do meu Patrono, Sr. Lourenço Pereira Pinto, e aqui deixo o meu carinho e reconhecimento aos seus familiares, prometendo honrar a cadeira 37 da AVL.



Para concluir, quero informar que consegui restaurar as partituras do lindo dobrado Capitão Pedro José Lopes Gonçalves, de sua autoria, e fiz uma gravação do mesmo, que ouviremos agora.



Muito obrigado a todos.



Vitória do Mearim, 21 de Abril de 2017




Pedro Barros Neto

Link para a canção "Senhora de Nazaré":
https://soundcloud.com/pedro-barros-neto-880577778/senhora-de-nazare

Link para o dobrado "19 de Abril": 
https://soundcloud.com/pedro-barros-neto-880577778/dobrado-19-de-abril

segunda-feira, 10 de abril de 2017

ABASTECIMENTO DE ÁGUA DE VITÓRIA DO MEARIM

A CAEMA é uma empresa de economia mista, cujo sócio majoritário é o Estado do Maranhão. Foi criada em 1966, simultaneamente com todas as outras companhias estaduais similares do Brasil, para atender a execução do Plano Nacional de Saneamento – PLANASA do governo federal da época.

Sua atuação era regida por normas do Ministério do Interior, que determinavam a exclusividade do extinto BNH – Banco Nacional de Habitação como agente financiador das obras de saneamento em todo país.
Iniciou com perfuração de poços e construção de chafarizes nas cidades do interior maranhense, com recursos repassados pela Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE, Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia – SUDAM, e Secretaria de Desenvolvimento do Maranhão – SUDEMA.

A partir de 1967 a CAEMA partiu para um arrojado programa de implantação de abastecimento de água no Maranhão, “nadando” em recursos oriundos do BNH e com projetos bem elaborados.

Infelizmente o município de Vitória do Mearim ficou fora desses programas, pois estava sob domínio da Fundação SESP (hoje FUNASA), desde 1960, e ficou “patinando” por muitos anos, tentando colocar uma gota d´água na torneira, e não conseguia.

Trabalhei na CAEMA de 1971 a 1976, e enquanto eu ajudava a implantar vários sistemas de água em outras cidades, aqui em Vitória a coisa estava há mais de dez anos só na tentativa e erro, e a gente bebendo água do rio (que nessa época já era contaminada), e sonhando em beber uma água de qualidade, como a que tinha no “poço da bomba” (*).

(*) Do outro lado da “Lagoa”, hoje a praça da Santa, entroncamento da estrada de Viana, ficava o primeiro poço “municipal”, conhecido como poço da bomba. Era um poço raso , dentro do juçaral ali existente, e que tinha uma água límpida, do lençol superficial.

Lembro que a década de 60, sob domínio do SESP, foi decepcionante pelo aspecto técnico, e catastrófico pelo lado humano:
  • a construção do primeiro reservatório (caixa de água) era feita em ritmo lento e improvisado, e demorou anos para ser concluído (uma obra que fazíamos em 60 dias na CAEMA), e durante sua construção houve um acidente com vítima fatal, na pessoa do Engenheiro responsável, quando o elevador despencou de uma altura de 15 metros, com pessoas e materiais.
  • a sondagem de água subterrânea também era decepcionante(**). A equipe só tinha de aproveitável o excelente futebol jogado pelo encarregado, Sr. Álvaro, mas que lá na sondagem, que determinaria a perfuração de um poço artesiano, ia de mal a pior, até que meses depois veio o diagnóstico menos esperado: a água subterrânea era salobra, portanto essa fonte de abastecimento de água estava descartada, e só restava o rio Mearim.

(**) o local dessa sondagem foi no final da Rua de Nazeré (beco da igreja), na margem da “Lagoa”, já citada acima.

O certo é que o SESP nunca conseguiu fazer um sistema tecnicamente correto, até que nos anos 80 a CAEMA assumiu o sistema, só que havia uma grande diferença: não tinha mais o “apoio financeiro” que tinha lá no iníco, pois todas as obras nos outros municípios já estavam encerradas, e os sistemas operavam a plena capacidade. Vitória do Mearim ficara para trás, desde a largada.

O histórico da CAEMA em Vitória do Mearim, até os dias atuais, também é decepcionante. E para provar esta afirmação, não é preciso muito esforço: a memória popular é testemunha viva, assim como as fotos deste post, e do anterior, feitas em fevereiro de 2017.





A CAEMA recebeu um sistema precário, e no passo de tartaruga foi colocando pequenas melhorias.

Nesse ínterim, construiu somente um novo reservatório de 700 m³, e por muitos anos a captação foi feita por uma bomba montada numa “balsa” improvisada ( igual à balsa atual: uma gambiarra), e tanto a balsa, como a bomba, eram campeãs de falhas, e frequentemente ficavam paradas por vários dias, aguardando manutenção. Não tinham sobressalentes. Afinal, se faltar água, basta ir ao rio (contaminado), encher suas vasilhas de água e tomar um bom banho.

Somente em 12 de junho de 2003 é que foi inaugurada a atual Estação de Tratamento de Água (ETA), mas até hoje o sistema ainda é precário em todos os aspectos: captação, tratamento, distribuição, reservação, controle de perdas, e principalmente, o regime de fornecimento e a confiabilidade dos equipamentos.

Para não perdermos as contas, a inauguração da atual estação de tratamento ocorreu depois de 43 anos, desde o início desta história.

O regime de fornecimento traduz como a água está disponível nos domicílios, ao longo do tempo. A CAEMA, com o passar dos anos, foi se especializando em deixar faltar água em todas as cidades onde opera o sistema, o que é hoje uma característica cultural da empresa. 

Isso surgiu em função do monopólio da prestação do serviço, da relação de “camaradagem” entre os gestores municipais e a empresa, politicagem para não desgostar o (a) Governador(a), e vice-versa, e assim foi se consolidando, a ponto de se tornar sua marca registrada.

 
A falta de água, como problema crônico, é consequência da baixíssima confiabilidade dos equipamentos, da precariedade do método e da logística de manutenção, da falta de redundância no bombeamento (bombas de reserva conectadas em paralelo), da falta de sobressalentes nos centros de reparos, pelo alto nível de perdas de água nos domicílios ou na própria rede de distribuição, da falta de armazenamento da água bruta, que nem existe, e da água tratada, pois só tem um reservatório, quando deveriam ser quatro (mostrarei no próximo post).

Os operadores locais são competentes e dedicados, mas sabem que seu comando não dá resposta efetiva nem a tempo, além de colocá-los sob fogo cerrado de críticas, sempre que ocorre uma falha.

A água potável deve estar disponível nos domicílios 24 horas por dia, no maior tempo possível durante um ano. Este é o regime de fornecimento correto, e para que isso ocorresse, seria necessário uma guinada de 180 graus no modelo gerencial consolidado pela CAEMA, o que está praticamente fora de cogitação.

Esse regime de fornecimento correto não é difícil ou caro, pois dependente muito mais de atitude e do entendimento da missão que tem um serviço de abastecimento de água. É tão simples e rotineiro, que as empresas que têm sistemas de água próprios, como ALUMAR e VALE, por exemplo, ou empresas especializadas em saneamento, como a ODEBRECHT Ambiental, cumprem esse regime com a maior naturalidade e baixo custo.

Qual a necessidade que há de uma cidade com mais de 20.000 habitantes ficar submetida a um descaso desse porte, por décadas a fio? Nenhuma!

Meu ponto de vista sobre gestão é de que o responsável por um processo conheça o que está fazendo (métodos, meta de produção, qualidade intrínseca e entrega do produto), se sinta incomodado quando a meta não é alcançada, e tome atitude de dono para fazê-lo funcionar bem e a tempo. Se o prestador do serviço não se enquadrar dentro destes princípios, nunca terá êxito.

Como a Prefeitura é de direito o órgão responsável pelo saneamento básico do município (não o Estado), essa precariedade enorme e desgastante que virou a rotina da CAEMA em Vitória do Mearim poderia ser corrigida com a Municipalização imediata da Operação do sistema ( diferente de privatização).

No próximo post tratarei dos problemas existentes no nosso sistema e soluções sugeridas, e você saberá também da mais nova pérola, que é a irreversível privatização da CAEMA.

Conclusão: O nosso sistema de abastecimento de água começou improvisado em 1960, e improvisado está, em 2017.