Estou
imensamente honrado por pertencer a esta casa, representativa da
força criativa do povo Arariense e Vitoriense, e por isso tenho que
compartilhar essa honra com diversas pessoas, Ararienses e
Vitorienses, que de certa forma me ajudaram a chegar aqui.
Os
valores mais sagrados para o ser humano são aprendidos na infância,
no convívio diário com a família, com os amigos e parentes, com os
professores, e no convívio com os membros de sua congregação
religiosa, seja ela qual for.
Nasci
e passei minha infância e adolescência aqui em Vitória, numa época
em que se vivia de forma simples, conforme resumirei em seguida:
- Tínhamos a praça Rio Branco, que era um bonito campo, e que aos poucos foi ganhando calçamento, mas que sempre foi o nosso campo de futebol, nosso local de empinar papagaios (sem rabiola), o local de encontro das escolas de samba, no carnaval, e também o local onde eram montadas as barracas de palha, no festejo de Setembro.
- Tínhamos o rio Mearim como o elemento central do dia-a-dia da cidade (com certeza, já poluído por ter muitas cidades ribeirinhas):
- onde lanchas, batelões e barcos a vela sempre atracavam nas rampas, com desembarque ou embarque de cargas e passageiros. Quando se ouvia a zoada dos motores, ao longe, e depois o apito, anunciado que estavam no estirão de chegada, todos corriam e se aglomeravam na rampa da Praça, para comemorar a chegada das lanchas com passageiros, que vinham da Capital;
- onde as mulheres lavavam roupas enquanto conversavam sobre suas vidas e a vida da cidade, mas sempre atentas à chegada da maré;
- onde os homens, mulheres e crianças enchiam água para suas casas;
- onde passeávamos de canoa;
- onde pescávamos;
- onde nadávamos;
- onde Pelé de Faray, atualmente Pelé da rapadura (Sr. José Martins Gomes) demostrava sua habilidade de melhor remador da baixada maranhense;
- e onde os banhos eram momentos de diversão, com os mais afoitos saltando dos toldos das lanchas maiores, ou saltando dos galhos das árvores, na preamar;
- Tínhamos pescadores fazendo suas tarrafas e redes de pesca.
- Tínhamos tecelões que faziam redes de dormir.
- Tínhamos alfaiates e costureiras.
- Tínhamos sapateiros, ferreiros e armeiros;
- Tínhamos artesãos que faziam meiasaba, abano, cofo e balaio.
- Tínhamos quebradeiras de coco babaçu.
- Tínhamos carro de boi.
- Tínhamos as brincadeiras infantis de andar nas latas ou de pernas-de-pau, jogar chucho, jogar bolinhas ou petecas, jogar sopapo, empurrar uma roda com uma tabica ou em gancho, puchar o colega na caçamba, que caia das palmeirinhas, e nas noites de luar, os meninos ficavam nas brincadeiras de correr, enquanto as meninas entoavam lindas cantigas de roda;
- Já adolescentes, tínhamos os bailinhos no coreto, ao som da radiola portátil de João Teles, a pilha, e às vezes os bailinhos comemorativos de aniversário, nas casas dos colegas. E foi justamente num desses bailinhos, em 1970, provavelmente em Julho, na casa de D. Iolanda, comemorando o aniversário da Confreira Amparo, que comecei a namorar Dagmar.
- E tínhamos também as serestas com Rui Viana, ou com o confrade Antonio Moyses Neto (*) e Zé Vieira;
(*)
Antonio Moyses Neto, nosso Confrade, a quem quero render minhas
homenagens, pois sempre o tive na conta de meu irmão mais velho, e
assim, sempre se portou comigo.
Mas
como tudo tem princípio, meio e fim, numa noite de Dezembro de 1967
eu recebi o boletim de aprovado, como concludente do curso
normal-ginasial, e enquanto meu pai e minha mãe ainda estavam com os
outros pais e alunos, aguardando o final da solenidade de entrega das
notas, eu voltava para casa para empreender o meu plano de vida que,
de há muito tempo, estava desenhado na minha cabeça: eu iria
estudar Eletromecânica na Escola Técnica Federal do Maranhão.
Nessa
mesma noite, antes que meus pais retornassem para casa, eu já estava
viajando para Arari, na lancha de seu Diquinho “Pirulito”,
levando somente as poucas roupas que eu tinha, algum dinheiro, dado
por Dona Venância Bogéa, minha vó materna e minha protetora, e
consegui a permissão de Seu Pirulito, para eu dormir na lancha, pois
iria pegar o ônibus de Nogueira, às 6 da manhã, para São Luís.
Graças
a Deus todo o meu plano se realizou, e com a minha primeira
profissão, praticamente construi a minha vida e da minha família.
Com a evolução tecnológica, e com o meu crescimento profissional,
aos 47 anos voltei para mais uma etapa de formação, na mesma Escola
Técnica Federal, só que então, denominada CEFET, onde fui graduado
em Eletrônica Industrial.
A
minha atividade, como músico, está publicada em meu blog, mas posso
acrescentar que apesar de ter passado muitos anos sem contato com a
música, a partir de 2009, quando me aposentei, decidi voltar a
tocar, pois ponderei que seria um enorme descaso com o dom que Deus
me deu, se me mantivesse afastado da música.
Então,
comprei uns instrumentos, e recomecei o meu aprendizado, gravando
músicas dos anos 60 e 70, tendo a companhia de Dagmar, emprestando a
sua voz, e assim, consegui me manter ocupado, e também pude colaborar
com algumas marchinhas para o carnaval vitoriense.
Eu
tinha muita vontade de compor um dobrado, pois sou admirador de
orquestras de sopro, e felizmente já realizei esse sonho, com o
dobrado 19 de abril, em homenagem ao aniversário de nossa terra.
Outra música que eu desejava muito compor era um louvor à nossa
padroeira, e também já está pronta, que é a canção Senhora de
Nazaré.
Vou
aproveitar este momento de felicidade para homenagear Dagmar, nossos
filhos e netos, e também a todos os meus irmãos.
Homenagear,
in memoriam, os meus pais e avós, que me deram uma sólida base de
princípios e valores, e foi com Dona Venância Bogéa que aprendi
uma grande lição de vida, que é o relacionamento respeitoso e
igual com todas as pessoas, acima de qualquer diferença ou
preferência. Como exemplos, posso citar que ela era católica
devotada, mas sempre se relacionou muito bem com os Pastores
evangélicos e com várias pessoas da congregação. Era amiga, por
igual, dos chefes políticos locais, de qualquer lado, e deles
recebia o mesmo trato, e isso se refletia na nossa comunidade, onde
ela era querida e admirada.
Quero
homenagear os Ararienses que cruzaram meu caminho, de forma
colaborativa, como o já citado, Sr. Diquinho “Pirulito”;
homenagear o Médico e Professor, Dr. João de Oliveira Prazeres,
cidadão Arariense e Vitoriense, que foi companheiro de quarto,
quando éramos estudantes, e era meu tutor, junto à Escola Técnica
Federal; homenagear a Sra. Hilda Pires Costa, dona da Pensão onde
morávamos, que cuidava da gente de forma maternal; homenagear Manoel
de Jesus Costa, dono da lancha Fé em Deus, que conheci na infância,
e que anos depois, reencontrei em Macapá, onde por cinco anos
tivemos uma convivência de grandes amigos; homenagear José
Francisco Pestana (in memoriam), e a todos os outros ararienses,
colegas de VALE, excelentes operadores de máquinas ferroviárias.
É
público e notório que os nossos coirmãos
ararienses sempre foram destaque na arte da navegação
fluvial ou marítima, e agora torno público, que também são
destaque na operação de equipamentos de construção e manutenção
ferroviária.
Da
mesma forma, quero homenagear os vitorienses importantes na minha
vida, começando pelo Sr. Miguel Moysés, que brilhava os olhos
quando o assunto era a criação de um curso ginasial em Vitória, e
juntamente com José Ribamar de Matos, Padre Eliud e Punim, criaram a
Escola Normal Ginasial Cenecista, em 1964.
E
por falar na Escola CENECISTA, aproveito para homenagear a todos os
professores da nossa primeira turma da Escola Cenecista, através das
Confreiras e Professoras Dona dos Reis, Dona Darcy e Dona Fátima,
e estendo as homenagens a todos os colegas de turma, pois no final
deste ano, de 2017, completam-se 50 anos de nossa formatura.
Quero
fazer uma homenagem especial a uma turma de estudantes vitorienses,
que iniciou o 2° grau em 1977, portanto há 40 anos, no Colégio
Ana Bogéa, onde tinham algumas professoras, que já lecionavam, e que
ali iniciavam o curso Normal. São elas:
Claudete
Rodrigues Jardim
Ana
Clara Coelho
Rosimar
Alves Silva
Elizabete
Andrade
Silenes
Cavalcante
Sebastiana
Garros
Iolanda
Leite Coelho
Maria
Edite Batalha Rodrigues
Como
detalhe, o único aluno era
Ideraldo de Sousa Vieira.
Saibam
que foi uma grande honra ter sido professor de pessoas tão
importantes da nossa comunidade, e quando completei 50 anos de idade,
sentado novamente num banco de faculdade, à noite, após uma jornada
de trabalho, sempre lembrava dessa turma, para me dar força, e
continuar.
Quero
homenagear os vitorienses Juvenal Torres Coelho e Abelardo Pereira,
como líderes de uma fantástica e vitoriosa aventura, chamada
Macapá: vários vitorienses mudaram-se para aquela cidade e lá
criaram raízes, e hoje formam, com filhos e netos, uma imensa
comunidade vitoriense.
Um
agradecimento carinhoso ao Ludovicence Benedicto Ferreira de Barrros
e Vasconcellos Neto, comandante de terra, mar e ar, meu colega de
Escola Técnica desde 1968, que sempre se portou como um verdadeiro
amigo, me mostrando os caminhos e oportunidades, através dos quais e
das quais, atravessei várias etapas da minha vida profissional. Hoje
somos aficionados por navegação aérea, e voamos juntos, de vez em
quando.
Agora
quero lhes falar sobre o meu antecessor, JOSÉ
DE RIBAMAR DUARTE, “Tio Zeca”, que nasceu no
povoado de Lapela, em 1924, na condição de vitoriense, pois ali
ainda era nosso município.
Não
o conheci pessoalmente, o que lamento, mas seu histórico, hoje
registrado na AVL, é simplesmente admirável, e muito conhecido,
haja vista ser cantado por todos os vitorienses, com a canção
Soberano, nosso hino municipal, uma de suas obras.
De
linguagem simples e popular, seu pendor lhe levou a descrever os
fatos do dia-a-dia na forma de versos e canções. A música soprava
as velas do seu barco da vida, e assim, vencia as turbulências que a
todo vivente, afligem.
Seu
banjo foi lenitivo e companheiro nas muitas noites de solidão e
vigília, que enfrentou por dever profissional, assim como também,
foi o seu passaporte para o sucesso. Não foi preciso o saber dos
livros para lidar bem com as palavras, aprendeu com a vida, que
quanto mais simples o falar, mais compreensivo será, aos ouvidos do
povo.
Cidadão
do mundo, teve a sorte de compartilhar sua arte com grandes nomes da
música maranhense, e teve o privilégio de transmitir seu dote
musical a muitas pessoas, em muitos lugares.
É
um imenso desafio assumir a cadeira 37 da AVL, pois terei que
honrá-la como sucessor de tão ilustre vitoriense. Aos seus
familiares transmito o meu carinho e meu compromisso de preservar o
legado do nosso querido “Tio Zeca”.
A
cadeira 37 da AVL, que ocuparei a partir de hoje, tem como patrono o
Sr. Lourenço Pereira Pinto, um ilustre e culto cidadão
vitoriense, que de 1901 a 1987 percorreu uma trajetória brilhante,
partindo do povoado de Santa Cruz, lutando bravamente pela
sobrevivência e pelo seu aprendizado.
Em
registros no arquivo nacional, de 1929, portanto aos 28 anos de
idade, aparece como ferreiro, juntamente com Quirino d'Anunciação
dos Santos, Cirineu Cotrim dos Santos, Domingos José Marinho,
Hermógenes Marinho e Pedro Figueiredo de Barros, meu avô.
Nos
mesmos registros, de 1931, aparece como 2° suplente de Juiz
seccional, da Justiça Federal, em Vitória do Mearim.
Foi
também músico civil e militar, instrumentista e compositor, foi
comerciante e proprietário rural, e aos 49 nos de idade, foi
prefeito Municipal do imenso município de Vitória do Mearim.
E
por conta de arcar com as despesas da sua campanha eleitoral,
praticamente se desfez de parte do seu patrimônio, havido como
comerciante e proprietário rural.
Graças
às informações colhidas e divulgadas pela AVL, muita gente hoje já
conhece algo sobre sua vida, mas aproveito e citarei alguns dos seus
feitos, como Prefeito Municipal de Vitória, por apenas 2 anos:
- Luz elétrica, pública e domiciliar na sede, em 1952.
- O primeiro caminhão do município.
- Instrumentos musicais para a banda municipal.
- Finanças do município com contabilidade precisa e publicada, apenas pelo sentimento de respeito à coisa pública, haja vista que à época, não era essa a prática, pois não havia o rigor contábil e fiscalizatório, adotado atualmente.
A respeito da luz elétrica, gostaria de relembrar que
esta foi a primeira tentativa de colocar esta utilidade para o
público em geral, mas lembrando que os chefes políticos da época,
que dependiam de seus serviços de alto-falantes, como veículos de
comunicação, já possuíam pequenos motores de luz: Padre Eliud,
para fazer funcionar a Voz da Vitória, que tinha os projetores de
som instalados no cume da igreja matriz, e Seu Antoninho Costa, para
fazer funcionar a Voz Popular Vitoriense, com os projetores de som
instalados num mastro de madeira, em frente ao casarão de pedras,
onde funcionava o Elite Bar, sob o comando de Bazinho Barros.
Lembrando
a quem viveu essa época, e para conhecimento dos mais novos, a
respeito da luz elétrica em Vitória, seu Bazinho Barros participou
tecnicamente dessa primeira implantação, do prefeito Lourenço
Pinto, participou da segunda implantação, de iniciativa do
prefeito Urany Costa (Punim) em 1963 e em seguida, da terceira
implantação, do sistema da CERNE (Companhia de eletrificação
rural do nordeste), em 1966, órgão do governo federal, e que foi
substituído posteriormente pela CEMAR, em 1973.
Portanto,
Senhoras e Senhores, este é o perfil do meu Patrono, Sr. Lourenço
Pereira Pinto, e aqui deixo o meu carinho e reconhecimento aos seus
familiares, prometendo honrar a cadeira 37 da AVL.
Para
concluir, quero informar que consegui restaurar as partituras do
lindo dobrado Capitão Pedro José Lopes Gonçalves, de sua autoria,
e fiz uma gravação do mesmo, que ouviremos agora.
Muito
obrigado a todos.
Vitória
do Mearim, 21 de Abril de 2017
Pedro
Barros Neto
Link para a canção "Senhora de Nazaré":
https://soundcloud.com/pedro-barros-neto-880577778/senhora-de-nazare
Link para o dobrado "19 de Abril":
https://soundcloud.com/pedro-barros-neto-880577778/dobrado-19-de-abril
Link para a canção "Senhora de Nazaré":
https://soundcloud.com/pedro-barros-neto-880577778/senhora-de-nazare
Link para o dobrado "19 de Abril":
https://soundcloud.com/pedro-barros-neto-880577778/dobrado-19-de-abril

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