O Bloco
Juçareira é com certeza o mais antigo e tradicional do carnaval de
Vitória do Mearim-Ma. Sai todos os anos na terça-feira de carnaval,
e tem sua concentração em frente à casa de Zé de Ana, que
praticamente participou da ideia inicial, vivenciou, aperfeiçoou e
vem mantendo essa bela página da cultura popular vitoriense.
Esse
bloco carnavalhesco é fruto de uma evolução da brincadeira de rua
que podemos chamar de Blocão popular, ou Bloco do sujo, que era
muito comum no carnaval brasileiro, e que também acontecia em
Vitória do Mearim.
- O Blocão popular é a síntese da “bagunça organizada”: não tem cordão, dispensa ensaio, não obriga o uso de fantasia padrão (apesar do advento dos abadás), rolam todas as músicas, e tudo sai na mais perfeita harmonia.
A título
de lembrança, um evento carnavalhesco organizado, que existiu em
Vitória, foi o bloco de Dona Aldalice Marinho Mecêdo, denominado "Bloco da Vitória" (1) onde os
homens ficavam de um lado e as mulheres do outro, formando dois
cordões separados (2), assim como existiram também Escolas de
Samba, na década de 60, geralmente uma em cada bairro.
- “bloco do sujo” - Esse nome vem do costume dos brincantes de um Blocão popular se “sujarem” com a tinta da semente de urucu ou com “tisna” de panela.
(1) Acho que o nome desse bloco foi inspirado numa música carnavalhesca que tocava no rádio e na "Voz Popular Vitoriense":
Bloco da Vitória -
rítmo: frevo de bloco. Ano de
1953.
de Nelson Ferreira: (nasceu em Bonito-Pe. em 9 de dezembro de 1902 e faleceu em Recife-Pe. em 21 de dezembro de 1976).
de Nelson Ferreira: (nasceu em Bonito-Pe. em 9 de dezembro de 1902 e faleceu em Recife-Pe. em 21 de dezembro de 1976).
A
palma da juçareira como ornamento - a ideia de usar a folha
(palma) da juçareira como ornamento, numa brincadeira de carnaval,
surgiu no já tradicional baile vesperal, que aconteceu em 1949, no
sábado de carnaval, na casa de Seu Domingos Neto, no Campo da Cotia.
Conta Zé
de Ana, que nesse baile ele estava na companhia de Walter Fernanades
(funcionário do Correio, companheiro de Luís Carlos Muniz), Ribamar
Sá e Silva (Cambel), e outros seus contemporâneos, e que a certa
altura da brincadeira, apesar da presença de muitas moças bonitas,
ele percebeu muita “moleza e desanimação” , e então teve a
ideia usar algumas folhas de juçareira (cortadas com o facão de
“Caçador”, cidadão do Jaguari, que estava de passagem pelo
local) como ornamento, para animar o baile, no que foi seguido pelos
colegas, e essa atitude restabeleceu a alegria da festa, tanto que o
baile “amanheceu”.
- Era costume dizer de um baile desanimado “esse não amanhece!”, ou seja, terminaria muito cedo.
No
retorno para Vitória, no domingo de carnaval, os brincantes do baile
de Domingos Neto, ainda com as folhas de juçareira, fizeram o
arrastão de novos brincantes, e continuaram na folia pelas ruas da
cidade.
No relato de Zé de Ana não há informação precisa de como a
brincadeira foi se consolidando ao longo dos anos, a partir de 1949.
Deixa claro, porém, que a partir de então, os brincantes do “Blocão
popular”, que saia terça-feira de carnaval, passaram a usar a
palma da juçareira como ornamento, e esta atitude foi com certeza a
semente que viria se transformar no Bloco Juçareira.
Alguns
anos depois - Até
onde me lembro, entre 1958 e 1960, já havia esse Blocão popular que
se concentrava na Praça Rio Branco, que saía sempre terça-feira de
carnaval, e cuja regra principal era apenas brincar: cada um
fantasiado da forma que quisesse, tocando todas as músicas da época,
sem distinção de cor, religião ou preferência política, e
percorrendo os bairros de Vitória.
Era um
bloco muito grande, reunia brincantes de todos os bairros, todos se
vestiam à vontade, muito fofão, muita máscara de papel machê, e
um aspecto interessante é que alguns participantes, antes do bloco
sair, desciam a Rua do Beco da Igreja (Rua de Nazaré) e iam até a
“lagoa” de Eustáquio Teles (um baixão alagado, localizado
exatamente onde hoje passa a BR-222, no entrocamento com a estrada de
Viana) para tirar palmas de juçareira que serviriam de enfeites no
bloco.
Tenho a
clara lembrança de que o Sr. Eustáquio Marinho Teles era também um carnavalhesco da época, participava ativamente
da organização do Blocão, além da colaboração feminina de Maria
do Rosário (Bibi) Maria Eli, Sonia e Graciete, e de suas amigas Maria
Helena Dutra, Maria Francisca Almeida, Cotinha Prazers, e outras
jovens, que faziam parte desse grupo (2).
Esse
bloco era animado pelos músicos participantes da Banda Musical
Vitoriense, dirigida pelo maestro Arico Franco, e as músicas eram
cantadas "no gogó", pois não existia carro de som nesse tempo.
- Nessa época o carnaval de rua era somente pela manhã, e o domingo de carnaval era reservado para o desfile das Escolas de Samba dos bairros de Tapuitapera, Puraqueú ou Rua de Cima e Rua da Lage, cujo desfecho era o encontro das três escolas na Praça Rio Branco. Na segunda-feira eram os “entrudos” de cada bairro, e na terça-feira, era o Blocão popular, que veio evoluindo até se tornar o consagrado Bloco Juçareira.
- Entrudo – uma brincadeira de carnaval onde os brincantes usam spray d´água, se sujam com tintas e polvilho e saem em grupos pelas ruas, para molhar e sujar as outras pessoas, como forma de chamá-las para a abrincadeira. Em Vitória do mearim existe até hoje, principalmente nos eventos vespertinos, na Praça Rio Branco.
A
música-tema do bloco Juçareira - em 1961, uma das músicas que
se destacou, portanto era a preferida da bandinha e do público foi
a “ Marcha da Cantareira”, gravada por Gordurinha, a partir do
sucesso de 1960 “Mambo da Cantareira”, música de Barbosa da
Silva e Eloide Warthon.
Essa
música foi tocada na concentração do bloco, e por influência do
uso das palmas de juçareira como ornamento, empunhadas pelos
brincantes, e também pela semelhança do “som” das palavras
cantareira e juçareira, a turma que estava no Blocão
popular, em 1961, começou a modificar o refão original da música:
“ei Cantareira, ei Cantareira...” por “ei juçareira, ei
juçareira....” e vem sendo assim até hoje, sempre que toca essa
música. Dessa forma, o nome Juçareira “colou” definitivamente
no Blocão popular, que há muito tempo já usava a folha da
juçareira como enfeite.
Mudança
do local da concentração para a Rua Urbano Santos – somente
após 1976 é que a concentração do já consagrado bloco Juçareira
passou a ser em frente à casa atual de Zé de Ana. Pode-se atribuir
essa mudança à ausência de várias pessoas que o ajudavam na
organização do bloco, pois a maioria se mudou de Vitória, e
então, para não deixar o bloco à deriva, Zé de Ana, com a sua
família, assumiram definitivamente o seu comando, para mantê-lo
ativo por todos esses anos.
Os
bonecos gigantes – Segundo o
próprio Zé de Ana, tudo começou em 1975 quando ele criou e
desfilou com um “garrafão” representando a cerveja CERMA.
Em
1976, deu sequência à ideia de alegoria, e desfilou trajado de
“bode”!!!
Em
1977 alternou para uma fantasia de “urso”.
Somente
a partir de 1978 é que a sua inquietação criativa finalmente focou
na montagem dos “bonecos temáticos”, sempre procurando
representar pessoas em destaque, fatos importantes do município, do
estado ou mesmo a nível nacional, e esses Bonecos Gigantes, que
desfilam à frente do bloco, hoje são uma das suas marcas
registradas.
Compositores
vitorienses que já homenagearam o bloco – Maria
da Graça Carão (esposa de Zé de Ana), Dudus, Toninho Bacarias (do
Correio) e Danyelle Franco (neta);
Bloco
Juçareira ou “Arrastão do Juçareira” - E assim surgiu e se
firmou uma das brincadeiras de carnaval mais democráticas e
duradouras de Vitória do Mearim, graças à persistência, à
criatividade, e principalmente, à “neutralidade” de todos os
que, de alguma forma, participaram e fizeram sua organização ao
longo de 68 anos (completados agora em 2017), principalmente do
grande mestre Zé de Ana, que nunca sugeriu ou permitiu distinção
entre as preferências dos brincantes, deixando o bloco da Juçareira
como território livre para a “fuzarca carnavalhesca”.
Agora,
falta somente o reconhecimento oficial do Bloco Juçareira como um
patrimônio cultural imaterial do povo vitoriense e o
reconhecimento, em vida, de Zé de Ana, como um cidadão muito
importante para a nossa cultura popular.
(2) os
fatos lembrados por mim foram checados com Sonia Macedo, e a
lembrança que ela tem do bloco de D. Aldalice.
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Letra da
música original “Marcha da Cantareira” de 1961:
SÓ VENDO
COMO É QUE DÓI
SÓ MESMO
VENDO COMO É QUE DÓI
TRABALHAR
EM MADUREIRA
VIAJAR NA
CANTAREIRA
E MORAR
EM NITERÓI
EH,
CANTAREIRA
EH,
CANTAREIRA
EH,
CANTAREIRA
VOU
APRENDER A NADAR
EH,
CANTAREIRA
EH,
CANTAREIRA
EH,
CANTAREIRA
EU NÃO
QUERO ME AFOGAR
Observação:
Cantareira
(significado dado para esta música): Apelido dado às barcaças para
passageiros que faziam a travessia do Rio de Janeiro para Niterói na
Baía de Guanabara.
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