quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A EVOLUÇÃO DO BLOCO JUÇAREIRA

O Bloco Juçareira é com certeza o mais antigo e tradicional do carnaval de Vitória do Mearim-Ma. Sai todos os anos na terça-feira de carnaval, e tem sua concentração em frente à casa de Zé de Ana, que praticamente participou da ideia inicial, vivenciou, aperfeiçoou e vem mantendo essa bela página da cultura popular vitoriense.

Esse bloco carnavalhesco é fruto de uma evolução da brincadeira de rua que podemos chamar de Blocão popular, ou Bloco do sujo, que era muito comum no carnaval brasileiro, e que também acontecia em Vitória do Mearim.
  • O Blocão popular é a síntese da “bagunça organizada”: não tem cordão, dispensa ensaio, não obriga o uso de fantasia padrão (apesar do advento dos abadás), rolam todas as músicas, e tudo sai na mais perfeita harmonia.

A título de lembrança, um evento carnavalhesco organizado, que existiu em Vitória, foi o bloco de Dona Aldalice Marinho Mecêdo, denominado "Bloco da Vitória" (1) onde os homens ficavam de um lado e as mulheres do outro, formando dois cordões separados (2), assim como existiram também Escolas de Samba, na década de 60, geralmente uma em cada bairro.
  • “bloco do sujo” - Esse nome vem do costume dos brincantes de um Blocão popular se “sujarem” com a tinta da semente de urucu ou com “tisna” de panela.
(1) Acho que o nome desse bloco foi inspirado numa música carnavalhesca que tocava no rádio e na "Voz Popular Vitoriense": 
Bloco da Vitória   -  rítmo: frevo de bloco. Ano de 1953.
de Nelson Ferreira: (nasceu em Bonito-Pe. em 9 de dezembro de 1902 e faleceu em Recife-Pe. em 21 de dezembro de 1976).

A palma da juçareira como ornamento - a ideia de usar a folha (palma) da juçareira como ornamento, numa brincadeira de carnaval, surgiu no já tradicional baile vesperal, que aconteceu em 1949, no sábado de carnaval, na casa de Seu Domingos Neto, no Campo da Cotia.

Conta Zé de Ana, que nesse baile ele estava na companhia de Walter Fernanades (funcionário do Correio, companheiro de Luís Carlos Muniz), Ribamar Sá e Silva (Cambel), e outros seus contemporâneos, e que a certa altura da brincadeira, apesar da presença de muitas moças bonitas, ele percebeu muita “moleza e desanimação” , e então teve a ideia usar algumas folhas de juçareira (cortadas com o facão de “Caçador”, cidadão do Jaguari, que estava de passagem pelo local) como ornamento, para animar o baile, no que foi seguido pelos colegas, e essa atitude restabeleceu a alegria da festa, tanto que o baile “amanheceu”.
  • Era costume dizer de um baile desanimado “esse não amanhece!”, ou seja, terminaria muito cedo.
No retorno para Vitória, no domingo de carnaval, os brincantes do baile de Domingos Neto, ainda com as folhas de juçareira, fizeram o arrastão de novos brincantes, e continuaram na folia pelas ruas da cidade.

No relato de Zé de Ana não há informação precisa de como a brincadeira foi se consolidando ao longo dos anos, a partir de 1949. Deixa claro, porém, que a partir de então, os brincantes do “Blocão popular”, que saia terça-feira de carnaval, passaram a usar a palma da juçareira como ornamento, e esta atitude foi com certeza a semente que viria se transformar no Bloco Juçareira.

Alguns anos depois - Até onde me lembro, entre 1958 e 1960, já havia esse Blocão popular que se concentrava na Praça Rio Branco, que saía sempre terça-feira de carnaval, e cuja regra principal era apenas brincar: cada um fantasiado da forma que quisesse, tocando todas as músicas da época, sem distinção de cor, religião ou preferência política, e percorrendo os bairros de Vitória.

Era um bloco muito grande, reunia brincantes de todos os bairros, todos se vestiam à vontade, muito fofão, muita máscara de papel machê, e um aspecto interessante é que alguns participantes, antes do bloco sair, desciam a Rua do Beco da Igreja (Rua de Nazaré) e iam até a “lagoa” de Eustáquio Teles (um baixão alagado, localizado exatamente onde hoje passa a BR-222, no entrocamento com a estrada de Viana) para tirar palmas de juçareira que serviriam de enfeites no bloco.

Tenho a clara lembrança de que o Sr. Eustáquio Marinho Teles era também um carnavalhesco da época, participava ativamente da organização do Blocão, além da colaboração feminina de Maria do Rosário (Bibi) Maria Eli, Sonia e Graciete, e de suas amigas Maria Helena Dutra, Maria Francisca Almeida, Cotinha Prazers, e outras jovens, que faziam parte desse grupo (2).

Esse bloco era animado pelos músicos participantes da Banda Musical Vitoriense, dirigida pelo maestro Arico Franco, e as músicas eram cantadas "no gogó", pois não existia carro de som nesse tempo.
  • Nessa época o carnaval de rua era somente pela manhã, e o domingo de carnaval era reservado para o desfile das Escolas de Samba dos bairros de Tapuitapera, Puraqueú ou Rua de Cima e Rua da Lage, cujo desfecho era o encontro das três escolas na Praça Rio Branco. Na segunda-feira eram os “entrudos” de cada bairro, e na terça-feira, era o Blocão popular, que veio evoluindo até se tornar o consagrado Bloco Juçareira.
  • Entrudo – uma brincadeira de carnaval onde os brincantes usam spray d´água, se sujam com tintas e polvilho e saem em grupos pelas ruas, para molhar e sujar as outras pessoas, como forma de chamá-las para a abrincadeira. Em Vitória do mearim existe até hoje, principalmente nos eventos vespertinos, na Praça Rio Branco.
A música-tema do bloco Juçareira - em 1961, uma das músicas que se destacou, portanto era a preferida da bandinha e do público foi a “ Marcha da Cantareira”, gravada por Gordurinha, a partir do sucesso de 1960 “Mambo da Cantareira”, música de Barbosa da Silva e Eloide Warthon.

Essa música foi tocada na concentração do bloco, e por influência do uso das palmas de juçareira como ornamento, empunhadas pelos brincantes, e também pela semelhança do “som” das palavras cantareira e juçareira, a turma que estava no Blocão popular, em 1961, começou a modificar o refão original da música: “ei Cantareira, ei Cantareira...” por “ei juçareira, ei juçareira....” e vem sendo assim até hoje, sempre que toca essa música. Dessa forma, o nome Juçareira “colou” definitivamente no Blocão popular, que há muito tempo já usava a folha da juçareira como enfeite.

Mudança do local da concentração para a Rua Urbano Santos – somente após 1976 é que a concentração do já consagrado bloco Juçareira passou a ser em frente à casa atual de Zé de Ana. Pode-se atribuir essa mudança à ausência de várias pessoas que o ajudavam na organização do bloco, pois a maioria se mudou de Vitória, e então, para não deixar o bloco à deriva, Zé de Ana, com a sua família, assumiram definitivamente o seu comando, para mantê-lo ativo por todos esses anos.

Os bonecos gigantes – Segundo o próprio Zé de Ana, tudo começou em 1975 quando ele criou e desfilou com um “garrafão” representando a cerveja CERMA.
Em 1976, deu sequência à ideia de alegoria, e desfilou trajado de “bode”!!!
Em 1977 alternou para uma fantasia de “urso”.
Somente a partir de 1978 é que a sua inquietação criativa finalmente focou na montagem dos “bonecos temáticos”, sempre procurando representar pessoas em destaque, fatos importantes do município, do estado ou mesmo a nível nacional, e esses Bonecos Gigantes, que desfilam à frente do bloco, hoje são uma das suas marcas registradas.

Compositores vitorienses que já homenagearam o bloco – Maria da Graça Carão (esposa de Zé de Ana), Dudus, Toninho Bacarias (do Correio) e Danyelle Franco (neta);

Bloco Juçareira ou “Arrastão do Juçareira” - E assim surgiu e se firmou uma das brincadeiras de carnaval mais democráticas e duradouras de Vitória do Mearim, graças à persistência, à criatividade, e principalmente, à “neutralidade” de todos os que, de alguma forma, participaram e fizeram sua organização ao longo de 68 anos (completados agora em 2017), principalmente do grande mestre Zé de Ana, que nunca sugeriu ou permitiu distinção entre as preferências dos brincantes, deixando o bloco da Juçareira como território livre para a “fuzarca carnavalhesca”.

Agora, falta somente o reconhecimento oficial do Bloco Juçareira como um patrimônio cultural imaterial do povo vitoriense e o reconhecimento, em vida, de Zé de Ana, como um cidadão muito importante para a nossa cultura popular.

(2) os fatos lembrados por mim foram checados com Sonia Macedo, e a lembrança que ela tem do bloco de D. Aldalice.
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Letra da música original “Marcha da Cantareira” de 1961:

SÓ VENDO COMO É QUE DÓI
SÓ MESMO VENDO COMO É QUE DÓI
TRABALHAR EM MADUREIRA
VIAJAR NA CANTAREIRA
E MORAR EM NITERÓI

EH, CANTAREIRA
EH, CANTAREIRA
EH, CANTAREIRA
VOU APRENDER A NADAR
EH, CANTAREIRA
EH, CANTAREIRA
EH, CANTAREIRA
EU NÃO QUERO ME AFOGAR

Observação:

Cantareira (significado dado para esta música): Apelido dado às barcaças para passageiros que faziam a travessia do Rio de Janeiro para Niterói na Baía de Guanabara.

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