EUTROFIZAÇÃO NO RIO
MEARIM
Recentemente surgiu um
fenômeno no rio Mearim, na altura da cidade de Vitória do Mearim,
no final da estiagem, quando o rio ainda está no regime de “água
baixa”, e ocorrem as primeiras chuvas. Este fenômeno é
caracterizado pela intensa proliferação do mururu ou aguapé,
a ponto de cobrir toda a superfície do rio, por um longo trecho, a
jusante e a montante da cidade
(1)Aguapé:
Eichhornia crassipes (Mart.) Solms
Nome(s)
Popular(es): Aguapé, jacinto d`água, gigoga, mururé, camalote,
rainha-dos-lagos, Família: Pontederiaceae. Na nossa região há a
denominação de mururu, em vez de mururé.
O aguapé é uma
planta aquática flutuante que se desenvolve muito bem nas regiões
de clima quente, e seu desenvolvimento é acelerado quando há boas
condições nutricionais, como é o caso das águas das lagoas e
represas que são poluídas por esgoto urbano e alguns tipos de
efluentes industriais e agrícolas.
Pelo volume de
vegetação produzido, obstruindo todo o espelho d´água, pela
intensificação coincidente com os dias seguintes a uma grande chuva
de verão, e pela localização definida em apenas um determinado
trecho do rio, esse fenômeno tem todas as características de
eutrofização
Significado
de Eutrófico. (Adj.)
Que
apresenta boa nutrição; que possui uma alimentação de qualidade.
Diz-se do solo caracterizado pela saturação de bases ou muito
fértil. Diz-se dos lagos e rios cujas águas possuem uma ausência
ou escassez de oxigênio, mas excesso de nutrientes.
Esse distúrbio
ambiental ocorre em lagos, ou rios de correnteza lenta, e é causado
pelo excesso de fertilizantes diluídos na água, provavelmente
lançados no rio através de águas contaminadas, produzidas na
região onde está ocorrendo o problema.
Os fertilizantes de
origem orgânica ou química, que causam a eutrofização nos rios
com águas lentas são originados de:
- esgoto sanitário: lançamento de dejetos diretamente no rio, ou fossas sépticas precárias (abertas, saturadas ou infiltradas por águas superficiais).
- Agricultura intensiva (aplicação de NPK): provavelmente sem contenções adequadas dos efluentes que naturalmente escoam para o rio durante as chuvas intensas.
NPK – (N =
Nitrogênio; P = Fosfato; K = potássio).
Como esse trecho do rio
Mearim tem o mesmo nível do mar (gradiente zero), é fortemente
afetado pelas marés, e num ciclo de 24 horas e 50 minutos, sua
correnteza passa por três fases: refluxo (maré enchente), preamar
(maré alta) e fluxo (maré vazante). Esse ciclo de agitação das
águas produz uma mistura homogênea dos elementos físicos ou
químicos presente na água. Os particulados físicos, inertes e/ou
orgânicos, causam a turbidez da água, e os elementos químicos
solúveis, ficam uniformemente distribuídos por largas extensões.
No regime de “água
baixa”, o fluxo de maré vazante é muito lento, e apesar dessa
fase demorar mais do que a maré enchente e preamar juntas, a
renovação da massa de água é muito lenta, facilitando ainda mais
a proliferação do mururu, se houver nutrientes em excesso na água.
Essa é a causa da formação do gigantesco balsedo em determinados
dias, conforme aparece nas fotos.
Balsedo
– (s.m.) Ilhota flutuante formada por um emaranhado de
plantas.(balsa+edo). Grande extenção de mururu, formando uma densa
camada.
Por outro lado, nos
meses chuvosos, quando o rio assume o regime de “água alta”, a
maré enchente vai interferir menos, permitindo uma renovação maior
da massa de água. Nesses meses o mururu vai descer mais rápido,
deteriorar e sumir abaixo de Arari, onde a água torna-se salobra, e
essa salinização se intensifica com a proximidade do mar. É
importante ressaltar que apesar de diminuir a presença do mururu
nesse período, não significa que não há contaminação:
simplesmente há uma maior diluição, e um deslocamento mais rápido
da vegetação, a jusante, não permitindo que haja formação de
balsedos de grande porte.
Para o correto
diagnóstico de um fenômeno desse tipo, o poder municipal poderia
buscar ajuda imediata junto ao governo do estado, para montar uma
equipe multidisciplinar envolvendo CAEMA, SEC. INFRA e MEIO AMBIENTE.
Essa equipe poderia apontar as causas da eutrofização do rio, os
males que podem provocar à fauna aquática, e principalmente, à
potabilidade da água, já que o rio Mearim é a única fonte de
suprimento utilizada pela CAEMA para o abastecimento d´água em
Vitória, que deveria ser Classe 2, e com certeza está fora dessa
classificação há muito tempo.
A classe da água é
que determina qual sua aplicação e respectivo tipio de tratamento
para
torná-la potável.
O
Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA, diante da Resolução nº
357, de 17 de março de 2005, alterada parcialmente pela Resolução
410/2009 e 430/2011, estabeleceu critérios sobre a classificação
dos corpos de água superficiais e diretrizes ambientais para seu
enquadramento, bem como as condições e padrões de lançamento de
efluentes. A classificação reúne uma série de definições com
base na aptidão natural dos cursos d’água, observando a sua
qualidade, capacidade, entre outras características específicas.
Há uma grande
probabilidade de uma das causas da contaminação do rio ser por
dejetos e águas servidas, pois sabe-se que não existe esgotamento
sanitário em Vitória do Mearim, que as fossas sépticas existentes
são insuficientes e ineficientes, pois a maioria da cidade está
sobre solo argiloso, altamente impermeável, sem contar com o aspecto
técnico, pois via de regra, as fossas são feitas sem um projeto,
portanto não vão fazer o papel de tratamento dos dejetos nelas
lançados. Junte-se a isso, que a maioria dos domicílios lança suas
águas servidas na superfície, a céu aberto.
Vitória do Mearim já
deveria ter um sistema de esagotamento sanitário, pelo ponto de
vista de saúde pública e também para prevenir a contaminação do
rio Mearim e suas consequências. Acho que chegou o momento de
trabalhar forte essa alternativa.
O esgotamento sanitário
no Maranhão foi colocado fora das prioridades nos últimos 50 anos,
portanto, pleitear uma benfeitoria desse tipo, neste momento, é
apenas tentar recuperar o tempo perdido. Sempre houve, e haverá
recursos, até porque já existem modernas técnicas de tratamento de
esgoto, mais eficientes e de menor custo.
Uma maneira de
equacionar uma demanda deste tipo seria a prefeitura atuar junto ao
governo estadual, para que a secretaria de INFRA do estado produzisse
os projetos de viabilidade e de execução de um sistema de coleta e
tratamento de esgoto, e com esses projetos, e novamente de braços
dados com o governo estadual, ir ao Ministério das cidades buscar
recursos federais para a construção do sistema.
Se um diagnóstico
apontasse que a contaminação do rio poderia ser também por
fertilizantes agrícolas, a forma razoável de equacionar este
problema seria a aproximação da Prefeitura com os produtores
locais, de preferência com o acompanhamento técnico da EMBRAPA /
FAPEMA / UEMA. Essas instituições podem produzir um relatório de
causas e efeitos, apontando ações corretivas e preventivas a serem
tomadas, tanto pelos produtores como pela Prefeitura, para que essa
importante segmento econômico passe a trabalhar com conformidade
ambiental, evitando a contaminação do rio.
A agricultura
intensiva é uma prática indispensável nos dias de hoje, mas que
deve atuar sempre focada na prevenção de contaminação ambiental,
e isso só é possível se houver uma interação positiva
entre produtor e poder público.
A melhor forma de se
resolver um problema é reconhecer que ele existe, descobrir suas
causas, e não culpados, e agir com objetividade e urgência.
A cidade de Vitória do
Mearim só existe por causa desse rio.

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