quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

EUTROFIZAÇÃO NO RIO MEARIM


Recentemente surgiu um fenômeno no rio Mearim, na altura da cidade de Vitória do Mearim, no final da estiagem, quando o rio ainda está no regime de “água baixa”, e ocorrem as primeiras chuvas. Este fenômeno é caracterizado pela intensa proliferação do mururu ou aguapé, a ponto de cobrir toda a superfície do rio, por um longo trecho, a jusante e a montante da cidade

(1)Aguapé: Eichhornia crassipes (Mart.) Solms
Nome(s) Popular(es): Aguapé, jacinto d`água, gigoga, mururé, camalote, rainha-dos-lagos, Família: Pontederiaceae. Na nossa região há a denominação de mururu, em vez de mururé.
O aguapé é uma planta aquática flutuante que se desenvolve muito bem nas regiões de clima quente, e seu desenvolvimento é acelerado quando há boas condições nutricionais, como é o caso das águas das lagoas e represas que são poluídas por esgoto urbano e alguns tipos de efluentes industriais e agrícolas.

Pelo volume de vegetação produzido, obstruindo todo o espelho d´água, pela intensificação coincidente com os dias seguintes a uma grande chuva de verão, e pela localização definida em apenas um determinado trecho do rio, esse fenômeno tem todas as características de eutrofização

Significado de Eutrófico. (Adj.)
Que apresenta boa nutrição; que possui uma alimentação de qualidade. Diz-se do solo caracterizado pela saturação de bases ou muito fértil. Diz-se dos lagos e rios cujas águas possuem uma ausência ou escassez de oxigênio, mas excesso de nutrientes.

Esse distúrbio ambiental ocorre em lagos, ou rios de correnteza lenta, e é causado pelo excesso de fertilizantes diluídos na água, provavelmente lançados no rio através de águas contaminadas, produzidas na região onde está ocorrendo o problema.

Os fertilizantes de origem orgânica ou química, que causam a eutrofização nos rios com águas lentas são originados de:
  1. esgoto sanitário: lançamento de dejetos diretamente no rio, ou fossas sépticas precárias (abertas, saturadas ou infiltradas por águas superficiais).
  2. Agricultura intensiva (aplicação de NPK): provavelmente sem contenções adequadas dos efluentes que naturalmente escoam para o rio durante as chuvas intensas.
NPK – (N = Nitrogênio; P = Fosfato; K = potássio).

Como esse trecho do rio Mearim tem o mesmo nível do mar (gradiente zero), é fortemente afetado pelas marés, e num ciclo de 24 horas e 50 minutos, sua correnteza passa por três fases: refluxo (maré enchente), preamar (maré alta) e fluxo (maré vazante). Esse ciclo de agitação das águas produz uma mistura homogênea dos elementos físicos ou químicos presente na água. Os particulados físicos, inertes e/ou orgânicos, causam a turbidez da água, e os elementos químicos solúveis, ficam uniformemente distribuídos por largas extensões.

No regime de “água baixa”, o fluxo de maré vazante é muito lento, e apesar dessa fase demorar mais do que a maré enchente e preamar juntas, a renovação da massa de água é muito lenta, facilitando ainda mais a proliferação do mururu, se houver nutrientes em excesso na água. Essa é a causa da formação do gigantesco balsedo em determinados dias, conforme aparece nas fotos.

Balsedo – (s.m.) Ilhota flutuante formada por um emaranhado de plantas.(balsa+edo). Grande extenção de mururu, formando uma densa camada.

Por outro lado, nos meses chuvosos, quando o rio assume o regime de “água alta”, a maré enchente vai interferir menos, permitindo uma renovação maior da massa de água. Nesses meses o mururu vai descer mais rápido, deteriorar e sumir abaixo de Arari, onde a água torna-se salobra, e essa salinização se intensifica com a proximidade do mar. É importante ressaltar que apesar de diminuir a presença do mururu nesse período, não significa que não há contaminação: simplesmente há uma maior diluição, e um deslocamento mais rápido da vegetação, a jusante, não permitindo que haja formação de balsedos de grande porte.

Para o correto diagnóstico de um fenômeno desse tipo, o poder municipal poderia buscar ajuda imediata junto ao governo do estado, para montar uma equipe multidisciplinar envolvendo CAEMA, SEC. INFRA e MEIO AMBIENTE. Essa equipe poderia apontar as causas da eutrofização do rio, os males que podem provocar à fauna aquática, e principalmente, à potabilidade da água, já que o rio Mearim é a única fonte de suprimento utilizada pela CAEMA para o abastecimento d´água em Vitória, que deveria ser Classe 2, e com certeza está fora dessa classificação há muito tempo.

A classe da água é que determina qual sua aplicação e respectivo tipio de tratamento para
torná-la potável.
O Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA, diante da Resolução nº 357, de 17 de março de 2005, alterada parcialmente pela Resolução 410/2009 e 430/2011, estabeleceu critérios sobre a classificação dos corpos de água superficiais e diretrizes ambientais para seu enquadramento, bem como as condições e padrões de lançamento de efluentes. A classificação reúne uma série de definições com base na aptidão natural dos cursos d’água, observando a sua qualidade, capacidade, entre outras características específicas.

Há uma grande probabilidade de uma das causas da contaminação do rio ser por dejetos e águas servidas, pois sabe-se que não existe esgotamento sanitário em Vitória do Mearim, que as fossas sépticas existentes são insuficientes e ineficientes, pois a maioria da cidade está sobre solo argiloso, altamente impermeável, sem contar com o aspecto técnico, pois via de regra, as fossas são feitas sem um projeto, portanto não vão fazer o papel de tratamento dos dejetos nelas lançados. Junte-se a isso, que a maioria dos domicílios lança suas águas servidas na superfície, a céu aberto.

Vitória do Mearim já deveria ter um sistema de esagotamento sanitário, pelo ponto de vista de saúde pública e também para prevenir a contaminação do rio Mearim e suas consequências. Acho que chegou o momento de trabalhar forte essa alternativa.

O esgotamento sanitário no Maranhão foi colocado fora das prioridades nos últimos 50 anos, portanto, pleitear uma benfeitoria desse tipo, neste momento, é apenas tentar recuperar o tempo perdido. Sempre houve, e haverá recursos, até porque já existem modernas técnicas de tratamento de esgoto, mais eficientes e de menor custo.

Uma maneira de equacionar uma demanda deste tipo seria a prefeitura atuar junto ao governo estadual, para que a secretaria de INFRA do estado produzisse os projetos de viabilidade e de execução de um sistema de coleta e tratamento de esgoto, e com esses projetos, e novamente de braços dados com o governo estadual, ir ao Ministério das cidades buscar recursos federais para a construção do sistema.

Se um diagnóstico apontasse que a contaminação do rio poderia ser também por fertilizantes agrícolas, a forma razoável de equacionar este problema seria a aproximação da Prefeitura com os produtores locais, de preferência com o acompanhamento técnico da EMBRAPA / FAPEMA / UEMA. Essas instituições podem produzir um relatório de causas e efeitos, apontando ações corretivas e preventivas a serem tomadas, tanto pelos produtores como pela Prefeitura, para que essa importante segmento econômico passe a trabalhar com conformidade ambiental, evitando a contaminação do rio.

A agricultura intensiva é uma prática indispensável nos dias de hoje, mas que deve atuar sempre focada na prevenção de contaminação ambiental, e isso só é possível se houver uma interação positiva entre produtor e poder público.

A melhor forma de se resolver um problema é reconhecer que ele existe, descobrir suas causas, e não culpados, e agir com objetividade e urgência.

A cidade de Vitória do Mearim só existe por causa desse rio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário